Música de Angola
Ética e cuidadosa, a cantora Patrícia Faria sai pela tangente à inevitável pergunta e diz: “Não digo quem é o melhor cantor Angolano”
Por Deusa Oliveira *
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"A nossa música cresceu
em quantidade
mas começa
a preocupar-me
um pouco
a qualidade
das obras" |
No último mês de Maio, a cantora Angolana Patrícia Faria lançou seu seu segundo disco solo, intitulado Baza Baza, seis anos depois de ter se lançado só nos palcos. Tendo iniciado sua carreira artística no grupo feminino As Gingas do Maculusso, Patrícia Faria enveredou por uma carreira a solo, com o lançamento, a 21 de Fevereiro de 2003, da sua primeira obra discográfica Eme Kya.
Baza Baza é marcado pelo semba – seu estilo de eleição –, além de ter um pouco de ‘sukusse’, produzido pelo angolano residente em Paris, Miguel Yamba e interpretado na companhia de Yuri da Cunha.
Com 13 temas, o disco foi produzido em Angola, Portugal, Espanha e França e contou, além da participação de Yuri da Cunha, com Sandokam. A produção coube a Paulo Flores, Nelo Paim, Betinho Feijó, Bonga, Filipe Mukenga, Filipe Nzau e Kizua Gourgel.
Ligada também à actividade radiofónica, a espontaneidade, o bom domínio da língua portuguesa e a dedicação ao trabalho fizeram com que Patrícia Faria rapidamente transitasse do escalão infantil para o juvenil na Rádio Nacional de Angola. Hoje ela é uma das melhores animadoras de programas radiofónicos de entretenimento em Angola.
Nascida numa família que gosta de farras e festas e muita música, esse foi o ambiente perfeito que fez dela uma grande compositora e intérprete.
Como comemorou o 11 de Novembro, dia da Independência de Angola?
A sensação de liberdade é fantástica. Graças a Deus, não passei por problemas de restrição de liberdade a que estiveram sujeitos os meus antepassados, os meus avós, os meus pais. Tive um dia da independência com a família e com os amigos. Deu para visitar alguns amigos que já não via há alguns dias, há meses até, dada a correria a que estou submetida, mas foi um dia de paz.
A sua carreira começou muito cedo. Este facto fez com que ficasse muito tempo ausente de casa?
De facto, a minha carreira artística começou muito cedo, mas encontro no seio da minha família a compreensão necessária para que eu consiga dar consistência a esta carreira. Por exemplo, o domingo é de facto um dia sagrado não só para dedicar a Deus mas também àquelas pessoas que Deus colocou na minha vida e que merecem toda a atenção. Então, nos domingos, quando não estou a trabalhar, é mesmo para a minha família.
Essa ausência de casa por causa da carreira teve alguma influência ou reflexo negativo em você?
Não, de maneira alguma…
Confere afirmar que quem se ausenta de casa, sobretudo as mulheres (pelas razões histórico-culturais conhecidas), distancia-se do aprendizado da gerência de um lar?
Volto a dizer que tenho uma família extremamente compreensiva e é nela que eu encontro a base e a estrutura para tudo aquilo que sou. Infelizmente, a ideia que as pessoas têm é que as figuras públicas, as mulheres bem sucedidas e as mulheres independentes, pecam porque nas lides domésticas são senhoras que não têm tanto trato. Isso não é verdade.
Então sabe varrer, cozinhar…
Atrasei à vossa entrevista porque a minha empregada está doente e tive que adiantar o almoço de casa. Portanto, não é de todo verdade que uma mulher que tenha muitos afazeres não saiba tratar das lides domésticas. Mulheres há que não são tão ocupadas e que não são tão boas na cozinha. É tudo muito relativo.
Mais quem fora da família?
(Gargalhada)
Olha, fora da família... Todos os elementos da minha família são muito, muito importantes. Fora da minha família, tenho de facto grandes amizades. Não são muitas. Posso até dizer que não ultrapassam os dedos da minha mão, mas são pessoas em quem encontro conforto e carinho iguais ou muitas das vezes superiores aos que encontro em alguns elementos da minha família. Assim sendo, posso aqui falar do meu próprio manager, que é uma pessoa espectacular, uma pessoa cinco estrelas. Também posso tomar como exemplo o caso de algumas colegas de faculdade que se tornaram como que minhas irmãs. Posso citar o caso da Luísa Quintas, da Natacha que estão comigo constantemente e a elas devo também o facto de ter conseguido concluir a minha licenciatura. Formámos uma corrente muito forte para que pudéssemos terminar o curso. São pessoas que marcam a minha vida.
Neste momento, está a namorar?
Olha, se esta pergunta tem relação com a anterior, quando questionou sobre as pessoas importantes na minha vida, digo que nem sempre no nosso marido ou namorado nós encontramos, vá lá, o ‘porto seguro’ que gostaríamos de encontrar. Neste momento, estou sozinha, estou solteira. Assim sendo, encontro nos meus amigos, nas pessoas que tenho como irmãos, o carinho suficiente e o amparo nos bons e nos maus momentos.
A Patrícia tem cinco irmãos. Por ser artista, sente alguma atenção especial ou diferenciada por parte dos seus pais?
A minha mãe sabe repartir o carinho de forma equilibrada, o amor de mãe por todos nós. Somos seis e eu sou a caçula. Tenho o carinho não só da minha mãe como de todos os meus irmãos, também por ser a figura pública. Sofro uma protecção muito grande por parte da minha família. Os meus tios, os meus primos, enfim, todo o mundo monta um cerco muito forte no sentido de salvaguardar a minha imagem, a minha integridade física e emocional. Não tenho que me queixar porque, neste sentido, tenho uma família cinco estrelas, todos unidos para me proporcionarem toda a segurança e apoio moral que uma família deve conferir a uma pessoa com estatuto como eu.
A minha mãe, volto aqui a reiterar, é uma mãe galinha que está constantemente preocupada com os pintainhos. Então a minha mãe de facto não dorme enquanto eu não chego à casa (o imortal músico Urbano de Castro já cantou isso). Pode até parecer que esteja num sono muito pesado, mas não. Acredito que se qualquer um dos outros meus irmãos tivesse a actividade que eu tenho, a preocupação seria a mesma. Aliás, quando os meus irmãos caiam na farra, os que já não vivem cá em casa porque já são casados, a preocupação da minha mãe era a mesma. Até hoje quando vamos à festa, a minha mãe fica sempre com um ouvido em pé, à espera que nós cheguemos à casa.
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