Este
livro certamente o será de interesse nos demais países
de língua portuguesa. Há algum planeamento para a
divulgação neste espaço alargado da lusofonia?
Como disse, é o primeiro livro do género
em língua portuguesa. E trata de questões universais
da língua e da interpretação, com considerações
úteis para colegas intérpretes e estudantes de línguas
de Portugal, Angola, Moçambique ou São Tomé,
países lusófonos que tive a felicidade de visitar
como intérprete. Enviei cópia autografada aos colegas
com quem já trabalhei nesses países. Vamos aguardar
que a obra desperte o interesse de algum editor nos demais países
da CPLP. O bom é que nesse caso não haverá
necessidade de se produzir nova tradução do texto.
O livro está pronto. Eu teria imenso prazer em voltar à
África ou a Portugal para promover o livro.
O livro
pode ser lido por qualquer pessoa, não necessariamente ligada
directamente ao universo da tradução? Pode-se dizer
que é um relato autobiográfico?
O livro tem como lastro as histórias vividas por
mim, naturalmente. Mas não cansa o leitor com uma coleção
de anedotas ou autopromoção. Os casos narrados servem
para ancorar sempre a discussão de algum tema importante,
como a desnecessária mistificação do ofício,
que impede a chegada de muitos talentos ao mercado. É também,
segundo a crítica, um livro de leitura fácil e agradável,
bem humorado, leve, com muitas reflexões lingüísticas
interessantes. Também faz um bom apanhado histórico
da interpretação simultânea, surgida no pós-guerra,
nos Julgamentos de Nuremberg. Outra curiosidade interessante, apresentada
no livro: foi de Hitler o primeiro discurso simultaneamente traduzido,
em 1934, para uma rádio francesa, prenunciando os horrores
do que viria a ser um dos mais sangrentos conflitos da História.
Isso talvez explique a difícil convivência entre intérpretes,
a vocação beligerante de alguns colegas e a eterna
prontidão para o embate. Já dizia São Jerónimo,
um dos maiores intelectuais da Idade Média, tradutor da Bíblia
para o latim - e por isso mesmo considerado, com justiça,
o santo padroeiro dos tradutores - que "a tradução
é ofício sempre sujeito ao ladrar de detratores".
E de facto ainda é freqüente e próximo o convívio
entre crítica e tradução. É muito fácil
desqualificar uma tradução. O difícil é
saber em que condições foi feita e as dificuldades
enfrentadas pelo tradutor. Jerónimo precisou isolar-se no
deserto, em busca de inspiração, e em longas horas
de estudo do aramaico - sem dicionários ou referências
escritas - para poder traduzir direto, sem a ponte do grego. Martinho
Lutero, outro tradutor bíblico, praticamente reinventou o
idioma alemão, padronizando a linguagem, criando vocábulos
e expressões, deselitizando a linguagem para fazê-la
inteligível ao cidadão comum. E ambos foram objectos
de uma crítica feroz.
Membro-fundador
da AIB (Associação de Intérpretes do Brasil),
esta entidade tem desempenhado papel activo junto aos profissionais?
Tem ideia do número de sócios existentes?
A AIB partiu de uma mobilização enorme visando
à introdução de alterações importantes
ao modelo associativo vigente no país. É resultado
de um processo altamente democrático de debate, que envolveu
intérpretes do Brasil inteiro. Sua intenção
está fundamentada em um documento extremamente importante,
"O Manifesto dos Intérpretes do Brasil", a chamada
"Carta de Brasília", que aliás consta de
um dos anexos de Sua Majestade, o Intérprete. A AIB nos lembra
a necessidade de democratizar o acesso às associações
profissionais, que até aqui foram usadas como clubes de afiliação
restrita mediante apadrinhamento, de modo muito parcial. Não
sabemos ainda como se desenvolverá a AIB, porque é
tentador o caminho do corporativismo. Mas marcou uma posição
importante e denunciou distorções sérias na
prática associativa até aqui.
O que
o move? Como seria seu auto-retrato?
Sou muito falador e muito
comunicativo. Tinha mesmo que vir parar na interpretação
ou em uma esfera outra qualquer de comunicação. E
fui muito influenciado por meu pai na questão das línguas.
Ele não chegou propriamente a me ensinar inglês, mas
me inspirou um enorme amor às línguas e ao diálogo
intercultural. Meu livro também é dedicado a ele,
por essa inspiração. Também gosto muito de
viajar, conhecer novas terras, novas gentes. Acho que acabei no
lugar certo. Mas minha grande paixão hoje é escrever.
Em 2003, lancei um livro de contos, intitulado O Eu em Cubos (Editora
LGE). Depois parti para Sua Majestade, o Intérprete. E agora
não paro mais. É uma cachaça. Acho que é
a forma como me expresso melhor, sendo livre para dizer o que penso,
da forma que penso. E a literatura é a forma de arte que
mais me emociona.
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| "Viajar
é uma parte importante da experiência de um intérprete.
Historicamente, sempre foi assim. Desde o Império Romano,
passando pelas Cruzadas e pela Era dos Descobrimentos" |
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