Poderia falar sobre sua actuação
e presença na Die Presse e na DPTech?
A Die Presse completou este ano 15 anos de existência,
e ainda está em actuação. Foi uma das primeiras
agências de tradução a estabelecer-se na Internet,
e teve papel fundamental na profissionalização do
mercado. Na época de sua fundação, não
se tinha quase nenhuma informação sobre tradução.
Os órgãos públicos não sabiam como contratar
e sujeitavam-se a prestadores de serviço genéricos
que também só iam procurar inteirar-se do que era
tradução depois de ganho o contrato. Instruímos
uma série de licitações públicas, criamos
editais-modelo. Profissionalizamos a relação entre
tradutor e agência, com assinatura de contrato e ordens de
serviço. Instituímos um sistema de estágio
on-line inovador, além de nosso Programa de Formação
de Intérpretes. E fomos - e ainda somos - uma empresa de
enorme responsabilidade social, com prestação de serviços
pro bono para algumas ONGs e projectos sociais, além de apoio
constante a iniciativas populares como o Brasília Music Festival,
o Festival de Cinema de Brasília e as promoções
do ECCO - Espaço de Arte Contemporânea. Foi minha grande
escola como empreendedor. Aprendi muito, com os muitos erros e acertos
desses 15 anos. Hoje estou-me desligando da Die Presse, para dedicar-me
mais à DPTech, fundada anos depois para a venda e distribuição
exclusiva, no Brasil, dos equipamentos Williams Sound, marca líder
em Assistência Auditiva e equipamentos para tradução
simultânea. Mas sei que a Die Presse já inseriu seu
nome na história da tradução no Brasil.
Há
quase uma década, o senhor fundou o Programa de Formação
de Intérpretes. Qual o balanço destes anos de trabalho?
Como tem sido a procura? E a demanda?
A ideia de formar intérpretes surgiu pela necessidade
de capacitar um número maior de profissionais de interpretação,
num mercado dividido em 'tribos' e altamente competitivo. E o grande
desafio à época era bolar um programa que fosse intensivo
(rápido) e ao mesmo tempo prático. Não sendo
eu até então académico ou autoridade em interpretação,
precisei partir de minha própria experiência. Com a
ajuda do colega David Haxton, montamos um pequeno laboratório
e fomos em busca da literatura disponível (que até
hoje não é muito extensa). O resultado foi um evento
de bom equilíbrio prático-teórico, com foco
na ação e na reflexão. Os aprendizes são
colocados na cabine desde o primeiro dia, para um primeiro choque,
depois do que vão-se expondo gradativamente a exercícios
de repetição, paráfrase, improvisação
e, por fim, tradução, novamente. As oficinas iniciais,
de 20 horas de duração, foram depois suplementadas
por treinamentos de até 6 meses, com exposição
gradual a diferentes temas, registros, sotaques e variados níveis
de dificuldade. Por um período, ainda incorporamos um programa
de Estágio Supervisionado. Desde 1998, passaram por nossos
workshops e treinamentos cerca de 200 pessoas. Destas, um bom número
chegou ao mercado e estabeleceu-se competentemente como intérprete.
Hoje nos limitamos apenas aos workshops, de curta duração,
que ministramos em Brasília e também em outras capitais.
Estou estudando com um colega de Angola a possibilidade de um curso
desses em Luanda.
Numa
mesma semana, pode estar em África, como Moçambique,
e depois seguir para a América do Norte. Como conciliar o
tempo com as demais actividades a que se propõe?
Viajar é uma parte importante da experiência
de um intérprete. Historicamente, sempre foi assim. Desde
o Império Romano, passando pelas Cruzadas e pela Era dos
Descobrimentos. Os intérpretes viviam embarcados ou desterrados,
sempre em trânsito, divididos entre dois mundos. Aliás,
o primeiro homem a circunavegar o planeta não foi Fernão
de Magalhães, mas o escravo Henrique, intérprete da
expedição, adquirido anos antes pelo capitão-mor
em Málaca. Quando a Armada das Molucas aportou no que hoje
é a Indonésia, Henrique fechou o circuito.
Nos últimos tempos, a coisa se
intensificou. Com a globalização, os eventos se multiplicam
pelo planeta, e o intérprete precisa ter mobilidade e disponibilidade
para correr o mundo. O grande desafio é conciliar vida profissional
e familiar. No meu caso, procuro selecionar bem os afastamentos,
cuidando também de estar 100% presente em casa entre as missões.
E no fim do ano, uso as muitas milhas aéreas acumuladas para
passar férias com a família. É um exercício
dinâmico de eleição de prioridades. Mas não
deixa de ser uma enorme aventura. A interpretação
me levou a lugares que eu de outra forma provavelmente não
teria conhecido. Com isso, perdi muitos preconceitos, fiz muitos
amigos em quatro continentes diferentes e ampliei muito minha visão
de mundo. Sou muito grato por essa oportunidade.
O senhor
lançou o livro Sua Majestade, o Intérprete
- o fascinante mundo da tradução simultânea.
Como o título denuncia, este ofício o atrai, o motiva.
Conte um pouco desta "aventura".
O livro é resultado de minhas observações
em 15 anos de carreira como intérprete. E já está
nas livrarias de todo o Brasil, e também na Internet (www.parabolaeditorial.com.br).
É uma reflexão profunda sobre o ofício da interpretação,
as técnicas que o tornam possível e a difícil
convivência entre intérpretes. Mistura relatos de casos
com explicações detalhadas dos aspectos mais importantes:
o controle emocional, a necessária habilidade lingüística,
a dinâmica de trabalho em dupla, a tradução
como instância de comunicação. É a primeira
obra do género em língua portuguesa e tem por objectivo
quebrar alguns paradigmas antigos e mitos associados à profissão
pelos próprios intérpretes. É uma leitura importante
para toda e qualquer pessoa com interesse em tradução.
É especialmente útil para os aspirantes a intérprete.
O livro
terá distribuição nacional? Pretende apresentá-lo
noutras cidades?
O lançamento nacional é 27 de Abril, em Brasília,
com a presença do Senador Cristovam Buarque, a quem o livro
também é dedicado, e que assina o prefácio
da obra. Mas a Parábola Editorial também prevê
lançamentos em São Paulo, Rio de Janeiro e outras
capitais. Quem sabe não fazemos um grande lançamento
em Luanda, Maputo ou Lisboa?
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Ewandro Magalhães
com Dalai Lama
e Michel Temer |
E com o Príncipe
Philip, Duque
de Edimburgo |
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