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Foto: Johnson Barros.

Palavras pelo MUNDO

Lançado em Brasília o livro Sua Majestade, o Intérprete - o fascinante mundo da tradução simultânea, de Ewandro Magalhães, que acumula mais de mil dias de eventos no Brasil, nos Estados Unidos e em África

Tradutor intérprete de conferências desde 1992, Ewandro Magalhães Jr. acumula cerca de seis mil horas de cabine, em mais de mil dias de eventos no Brasil, Estados Unidos e África. Membro-fundador da AIB (Associação de Intérpretes do Brasil), Ewandro lança Sua Majestade, o Intérprete - o fascinante mundo da tradução simultânea, prefaciado por Cristóvam Buarque, que assinala a multiplicidade da obra, definindo-a como um livro de aventura (pelos "causos" narrados), de orientação profissional, de técnica, de humor, de história (pois, entre outros dados, nos informa que a primeira tradução simultânea foi a de um discurso de Hitler) e de filosofia (com preceitos da linguística, reflecte sobre os limites culturais da tradução e outros pontos).

Se pensarmos na história das grandes civilizações e suas conquistas além-fronteiras, como a greco-romana, a egípcia, as civilizações mesopotâmicas ou hebraicas, comumente pensamos na comunicação entre elas. Qual é, hoje, o papel do intérprete?
A interpretação é com certeza um ofício tão antigo quanto a História. Em todo grande momento esteve presente um intérprete. E seu papel permanece essencialmente o mesmo: concorrer para que a comunicação aconteça. A diferença, hoje, fica por conta da tecnologia. Depois da Segunda Grande Guerra, e dos Julgamentos de Nuremberg, onde nasceu oficialmente a tradução simultânea, a prática foi disseminada em foros como a ONU, criada logo depois, institucionalizando-se, de certa forma. Mas a função dos intérpretes e da interpretação permanece rigorosamente a mesma.

Intérprete, em alguns dicionários, consta como sinónimo de tradutor. O senhor coloca entre estas duas designações alguma diferença?
Essa diferenciação cumpre apenas um fim didáctico, e só é valorizada mesmo por tradutores e intérpretes. Na verdade, traduzir e interpretar são verbos e acções que se interpenetram. Uma coisa não existe sem a outra. O tradutor que trabalha com textos também é obrigado a interpretar. E o intérprete, obviamente, traduz. Mas em alguns círculos profissionais, chamar um intérprete de tradutor é quase uma ofensa. De qualquer forma, o público leigo, que compra os serviços de interpretação e paga por eles, continua preferindo as formas 'tradução simultânea' e 'tradutor'.

À luz da sua experiência, quais os principais desafios enfrentados pelo intérprete?
O grande limitador na interpretação, sobretudo na simultânea, é emocional, e não lingüístico. De nada adianta dominar todo o jargão técnico de uma conferência, se não se dispõe da calma necessária para driblar uma dificuldade momentânea. Já com tranqüilidade, é possível compensar eventuais limitações lingüísticas. A comunicação vai muito além da língua. Outro grande desafio para o intérprete é entender-se como partícipe de um amplo processo de comunicação. Para bem desempenhar-se, esse profissional precisa logo cedo abandonar a noção de que é um mero intermediário. Precisa interessar-se pelo contexto. Precisa participar, integrar-se na conversa, como elemento enriquecedor.

Quais os principais trabalhos de intérprete que apontaria ao longo da sua carreira? Há uma área específica em que actua?
Minha origem foram os gabinetes da Câmara dos Deputados, em Brasília, onde servi como intérprete ao Presidente da Casa. Actuei também, interinamente, na Presidência da República, que era ocupada pela Câmara nos afastamentos do Presidente. Estávamos em 1992, e o Presidente Collor havia sido impedido. Acompanhei vários chefes de Estado e embaixadores nesse período e também depois. Por isso, estou bem à vontade na discussão de temas relacionados à área de Humanidades, geopolítica e pautas abrangentes: macroeconomia, formulação de políticas, diálogo intergovernamental. Mas também actuei muito, e com muito gosto, em congressos médicos, onde me beneficiei de meus anos de formação em Educação Física e Fisiologia. Além disso, na Medicina também é grande a ocorr ência de radicais latinos, o que é uma vantagem para os falantes de línguas românicas, como o português.

Quais foram as missões mais imprevisíveis ou complexas onde esteve presente?
As reuniões mais complexas, para um intérprete, são aquelas que envolvem negociação bi ou multilateral. Acompanhei diversas missões do Fundo Monetário Internacional e reuniões do G20, por exemplo, onde há sempre alguma tensão. Mas as coisas mais imprevisíveis surgem de onde menos se espera. Uma ocasião, fui forçado a traduzir simultaneamente por 40 minutos sem qualquer acesso ao áudio. O sistema de som falhou e não havia como interromper a tradução, cujo áudio continuava chegando à plateia. A solução foi fazer a tradução instantânea do artigo que nos tinham deixado como referência na cabine, sem a menor noção do que dizia o palestrante. Quer dizer, demos a palestra por ele. E para nossa surpresa, ao final, muita gente compareceu à cabine para nos perguntar se era possível obter cópia do documento traduzido por nós. Safamo-nos. Mas já vivi outras situações interessantes. Já me enfiei em um contêiner impregnado de ácido, com oficiais da Receita Federal inglesa; já interpretei depoimento judicial de acusados e suspeitos (o que é sempre uma experiência tensa); já fui quase agredido por fundamentalistas evangélicos durante uma conferência sobre aborto; fiquei preso no elevador com a cantora canadense Alanis Morissette; já fui confundido com o Presidente da Câmara pelo Dalai Lama; já entrei na cela de um presidiário para entrevistá-lo em Ohio. É uma aventura só.

 

Ewandro Magalhães com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o cantor norte-americano Lenny Kravitz
 
"Foi de Hitler o primeiro discurso
simultaneamente traduzido, em 1934,
para uma rádio francesa"
 
 
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ABRIL/MAIO 2007
 
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